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Ruas

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Palavra na imagem e imagem inserida na palavra.

Escrito por Kate Manhães

março 1, 2010 em 8:59 pm

Fotografia

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"Pelo o que vemos daqui debaixo. Pelo o que não vemos por todos os lados"

Escrito por Kate Manhães

março 1, 2010 em 3:02 pm

Publicado em Imagem Falada (fotografia)

Etiquetado com

Todo século tem seu mal e todo mal: seu século

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Ainda relutamos o simples e continuamos desenhando nossas vidas usando técnicas e sombras, quando apenas linhas bastariam. E quando penso, já perco o fôlego, ganhando ar logo em seguida, aquele belo oxigênio que entra nos pulmões quando raciocinamos com clareza. Existem males que vêm para bem e outros que apenas vêm, e, para não esquecer, há o que nem ainda se sabe causar qualquer coisa, sendo apenas um mal sem classificação.

Inventam-se antídotos. Descobrem-se doenças. Aplicam-se vacinas. E o mal, este então que, ora está presente por opção ora por imposição, acaba deste modo, por ter espaço reservado: sendo simplesmente solidão.

A ânsia tão indomável de construirmo-nos como máquinas perfeitas acabou levando algo que aos poucos não sabemos mais como reconstruir: o elo de nós com nós mesmos para com o outro.

Agora não temos tempo para bobeira, somos intocáveis em nossos terninhos e nossos cremes faciais de eterna juventude. A felicidade ganhou outros nomes, outros patamares com dimensões não dimensionáveis…

Podem vir epidemias, gripes suínas, o que for, pois o mal do século ainda é o “estar só”. Basta olhar em volta e ver os sites de relacionamentos lotados, cheios de fotos perfeitas de vidas intocáveis, mas que, no fim, apenas gostariam de estar andando na praça de mãos dadas.  Somos sérios, intelectuais e burros que não percebem mais a felicidade a dois palmos de nossas caras. Posso parecer brega, ou estar falando de algo que não sei, mas e daí? Deixe-me ser antiquada, retro, quadrada, uma boba talvez, mas e o amor gente? E o amor? Amor que era essencial em qualquer historia, virou casual, semanal, inconstitucional e banal.  Cartas já não existem mais, pois ninguém pagaria esse mico. O ridículo de ser ridículo é ridicularizado. Expressar-se é bobeira. Amar é bobeira. Sorrimos como recepcionistas de hotéis e nos trancamos em quartos sozinhos. Nós não gritamos mais o que sentimos, pois isso iria contra as dicas de etiqueta de Gloria Kalil. E todos os sentimentos, o sentir epiderme na pele, parecem ter sido desaprendidos. Talvez devêssemos reaprender a amar ou, simplesmente, deveríamos encontrar uma vacina contra a solidão, pois em minha opinião isso é mais deselegante, e, chega a ser mais feio do que falar com a boca cheia ou comer com as mãos.

Escrito por Kate Manhães

março 1, 2010 em 12:53 am

Publicado em ANTÍTETESE

Lustrar

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Foi quando sentiu o sapato apertando seu joanete que percebeu: precisava de algo confortavelmente apropriado para seus pés. Estranhou o fato de estar em casa em uma terça-feira de manhã. Os filhos, de férias com o pai em alguma praia no litoral santista, não poderiam lhe perturbar. (De tempos em tempos algo bom acontecia com seu ex-marido e ele, de forma doce, levava os garotos para longe. Talvez, por sentir medo de ser esquecido por eles ou por medo de esquecê-los.)

Líria abriu as portas da sua casa naquele dia, pois não hesitaria usufruir do momento para limpar do chão ao teto. Queria luz, sol que entrasse e que jamais saísse.  Ansiava prender o inexorável prazer da vida nas divisórias dos cômodos. Ela dispensou a empregada e ter seu lar só para ela era a liberdade incontável de 350m².

No ato de espaçar-se, muito do pó sobre os armários fora exposto. Pensara então no tamanho dos átomos. No tamanho de tudo que não se vê, mas que, quando revelado, parece tomar dimensões maiores do que realmente é. E se é, sempre fora, mas que apenas passa a ser algo com o nosso consentimento – torna-se notado depois de notado. De forma que, a poeira que antes não a repelia nem muito a incomodava, depois de constatada de existência, apenas poderia ter um rumo, ser removida – e ela enxergou-se pó.

Mãe dedicada, já havia, por muito tempo, se abstraído da idéia de ser mulher. Era fêmea a cuidar dos filhos. Acreditava que talvez tivesse sido esse o motivo do fim de seu casamento, mas claro que isso, somado ao episódio da secretária.

A indiferença dela para com seu passado causava pequenas “coceiras de garganta”, daquelas que copos e copos d’água ou tosses não aliviam – tornam-se crônicas e incomodam, mas não nos impedem de nada. Ressentimentos de términos e angustias de começos sem fins, estava tudo embutido e alojado nas varizes dos seus quarenta e tantos anos. “Os novos trinta”, diriam alguns, “os sempre quarenta”, sabia ela.

Com os móveis todos deslocados Líria limpou todos os cantos como se procurasse renovar a si mesma. Parecia que, ao ver a sujeira se diluindo aos poucos, limpava restos que nela também existiam. Entretanto, os pés ainda doíam.

Olhou-se no espelho e decidiu falar sozinha. Murmurou baixinho sobre a imagem que viu e que não aceitava, depois, ainda se olhando no espelho, falou bem alto no intuito de se escutar: “onde é que você foi parar?”. Resolveu sentar-se no vaso com a porta do banheiro aberta e suspirou a intimidade dela para com ela. O silêncio absoluto onde nem mesmo seus pensamentos eram ouvidos, mas que fora quebrado logo em seguida pela torneira aberta e a fricção de suas mãos.

Desistiu da faxina, afinal, tinha uma empregada. Aquele dia dela era, e de ninguém mais – não poderia ficar como o pó a espera de ser notada. Paredes e pisos não necessitam de tanta atenção assim, são apenas divisórias e chão, nada mais.

Já cansada sentou-se no sofá e achou estranha a visão daquele ângulo, (demorara doze meses para pagar o tal sofá e jamais havia se sentado nele). Riu da pintura falsa que mantinha em uma das paredes: “Kandinsky, luxo inventivo pago em prestações.” 

E ainda ali, sem se mover, viu como há muito não via: televisão. Eram tantos os canais, que ao apoderar-se do poder de mudança, o controle, não conseguia ficar em um só lugar: jornal, novela, esportes, seriados, desenhos, desenhos, novela, esporte, jornal, seriados, fofoca, fofoca, culinária, filmes, filmes, filmes, religião, filme erótico, novela, entrevista, entrevista… Em segundos passou pela modernidade – milhões de informações e pouquíssimas captadas.

Sem saber o que fazer com a liberdade, decidiu mal-dizer  o tempo: “Oh… hora que não passa!” E ao ver um comercial da Nike, calçou um tênis Adidas que ganhara do ex-marido, mas que nunca usara por pensar que aquele era o símbolo da insatisfação dele com o corpo dela. Calçou-se deixando a casa.

Dirigiu prestando atenção a tudo além: dos carros, dos sinais e dos semáforos. Percebeu estar na mesma lagoa que costumava ir quando mais jovem. Sentiu-se tentada a parar, e, parou.

Acomodou-se em um dos banquinhos de cimento. Olhou para seus pés ainda doloridos e resolveu apenas ali ficar a observar. Outra mulher de meia idade, logo em seguida, se sentou ao seu lado:

— Dia lindo!?

— Lindo dia!

— O medico lhe receitou caminhada?

— Não, o dia é que me indicou uma saída.

— Sempre que posso venho aqui para desempoeirar.

— Tem feito muita faxina?

As duas sorriram como se um código tivesse sido decifrado. Logo em seguida, a tal senhora despediu-se e, em passagens rápidas sumiu. Líria não se moveu.

Subitamente, uma mulher e uma garotinha apareceram. A criança, balançando suas perninhas sem alcançar o chão, sentou-se bem ao lado de Líria. A garotinha olhava para frente como se esperasse algo – o futuro talvez. Em espontaneidade que apenas a inocência encorajaria perguntou:

— Está aqui e vai ficar parada?

Líria mal respondeu e a menina já foi falando e falando, sem, nem ao menos dar tempo ao ar de encher seus pequenos pulmões

— Eu só parei para amarrar meu tênis. Mamãe sempre diz que devemos olhar para os dois lados e caminhar…

— É que meus pés estão doendo.

— Fique descalça!

Ao que disse isso, a pequena menina partiu entrelaçando sua mão com a da sua mãe olhando apenas para frente. Líria não conseguia acreditar na facilidade das respostas da criança, lembrando, logo em seguida, da comodidade de ser uma.

Com tudo em seu devido lugar, o parque não se sincronizou ao que viria a ser a desarmonia dos pensamentos dela. Ampla em apenas estar ali, ela percebeu a falta de autoridade que tinha para com o que, ao seu redor, acontecia – não conseguiu trocar de canal, o mundo externo era aquilo.

Não perdera nada que já não tivesse antes se desprendido, e percebeu o quão difícil era notar um belo dia quando a suavidade não está acontecendo por dentro. Podem pousar borboletas, o vento soprar suave e gentil que o que se notará será apenas insetos e vento atrapalhando o cabelo. A irritação transpassaria, e a beleza jamais passaria a ser beleza sem ser vista pelo avesso – pelo seu avesso. Não poderia sair correndo ou caminhando, tal sacrifício não a faria sair de onde realmente gostaria – “como sair para dentro?”

“De onde tudo isso nasceu? Talvez do pó!” Pensa-se em nada, e, exatamente assim, pensa-se em tudo.

De pés calçados, já não mais podia ver partículas do dia. Com a casa ainda vazia ligou a TV e percorreu canais tirando o tênis. Deitou no sofá, agora mais familiarizada com o ângulo que ele proporcionava e pensou no quanto havia andado e se questionado – enquanto estar descalça era o que precisava. 

Dormiu sabendo que teria que calçar os sapatos e esperar por seus filhos na manhã seguinte. E, assim, apertaria seus pés até ter que polir seus móveis novamente.

Escrito por Kate Manhães

junho 16, 2009 em 1:28 am

Publicado em CONTOS

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