Todo século tem seu mal e todo mal: seu século
Ainda relutamos o simples e continuamos desenhando nossas vidas usando técnicas e sombras, quando apenas linhas bastariam. E quando penso, já perco o fôlego, ganhando ar logo em seguida, aquele belo oxigênio que entra nos pulmões quando raciocinamos com clareza. Existem males que vêm para bem e outros que apenas vêm, e, para não esquecer, há o que nem ainda se sabe causar qualquer coisa, sendo apenas um mal sem classificação.
Inventam-se antídotos. Descobrem-se doenças. Aplicam-se vacinas. E o mal, este então que, ora está presente por opção ora por imposição, acaba deste modo, por ter espaço reservado: sendo simplesmente solidão.
A ânsia tão indomável de construirmo-nos como máquinas perfeitas acabou levando algo que aos poucos não sabemos mais como reconstruir: o elo de nós com nós mesmos para com o outro.
Agora não temos tempo para bobeira, somos intocáveis em nossos terninhos e nossos cremes faciais de eterna juventude. A felicidade ganhou outros nomes, outros patamares com dimensões não dimensionáveis…
Podem vir epidemias, gripes suínas, o que for, pois o mal do século ainda é o “estar só”. Basta olhar em volta e ver os sites de relacionamentos lotados, cheios de fotos perfeitas de vidas intocáveis, mas que, no fim, apenas gostariam de estar andando na praça de mãos dadas. Somos sérios, intelectuais e burros que não percebem mais a felicidade a dois palmos de nossas caras. Posso parecer brega, ou estar falando de algo que não sei, mas e daí? Deixe-me ser antiquada, retro, quadrada, uma boba talvez, mas e o amor gente? E o amor? Amor que era essencial em qualquer historia, virou casual, semanal, inconstitucional e banal. Cartas já não existem mais, pois ninguém pagaria esse mico. O ridículo de ser ridículo é ridicularizado. Expressar-se é bobeira. Amar é bobeira. Sorrimos como recepcionistas de hotéis e nos trancamos em quartos sozinhos. Nós não gritamos mais o que sentimos, pois isso iria contra as dicas de etiqueta de Gloria Kalil. E todos os sentimentos, o sentir epiderme na pele, parecem ter sido desaprendidos. Talvez devêssemos reaprender a amar ou, simplesmente, deveríamos encontrar uma vacina contra a solidão, pois em minha opinião isso é mais deselegante, e, chega a ser mais feio do que falar com a boca cheia ou comer com as mãos.